Fé divina e Boas obras

SOBRE O FOLHETO

FÉ DIVINA E BOAS OBRAS

Folhetos Católicos, n° 15.

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CONTEÚDO

1 – Os protestantes, desde Lutero até hoje, professam que o homem se salva só pela fé, não tendo as boas obras nenhum valor meritório para a vida eterna. Lutero chegou a amaldiçoar as boas obras como ilusórias.

(Diga-se de passagem que essa é razão principal pela qual eles são contra as sagradas imagens que, no entanto, a Bíblia aprova (Cf. Fol. Cat., nº 05). De fato, através delas se põem em realce diante dos fiéis os heróis  cristãos que se destacaram nas virtudes cristãs através da fé e das boas obras).

2 – Fechado o parêntese, voltemos ao tema fé-obras e fixemos a verdade que a Igreja Católica sempre professou, de que a fé verdadeira é imprescindível para a salvação, mas que só ela não salva o homem, porque, segundo a Bíblia, a fé, sem as obras, é morta, isto é, não salva. (Tg. 2,26; 2,14; Rom. 2,13)

3 – Os seguidores de Lutero pretendem achar justificativa para a sua errônea doutrina nos seguintes textos bíblicos: 1 – “Quem crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado” (Mc. 16,16) 2 – “Julgamos que o homem é justificado pela fé sem as obras da Lei” (Rom. 3,28; cf. também Gal. 2,16)

4 – É muito fácil ver que a interpretação protestante desses textos é falsa. Comecemos pelo 1º texto. (Mc 16,16) A sua correta exegese (interpretação) mostra claramente que ele exige as boas obras:

a ) porque inclui o batismo- (sobre a necessidade do batismo para adultos e crianças, ver  Fol. Cat., nº  07). Trata-se diretamente do batismo de adultos em cuja recepção se praticam necessariamente, além do ato de fé, várias virtudes ou boas obras, como o arrependimento dos pecados, de acordo com estas palavras de S.Pedro: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos pecados”. (At 2,38) No batismo também se praticam a humildade, a confiança em Deus, a oração, etc.; são outras tantas boas obras.

b ) porque as palavras de Jesus “Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer, será condenado”, fazem parte do seu último discurso ao enviar os seus Apóstolos pelo mundo; palavras que foram relatadas por S. Marcos (16,15-16), e por S Mateus (28,18 a 20). Os dois relatos se completam. É só encaixar o mais breve de Marcos no mais longo de Mateus assim: “Ide, pois, e fazei de todos os povos discípulos meus, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos mandei.”(Mt 28,18-19)“Quem crer e for batizado será salvo, quem não crer (e o adulto que não crê, não poderá ser batizado) será condenado”.(Mc. 16,16) “Eis que estarei convosco todos os dias até à consumação dos séculos.” (Mt. 28,20)

5 – Está claro, pois, que Jesus exige para a salvação, além da fé,as boas obras: “...ensinando-os a observar tudo o que vos mandei” (texto citado). E como já havia exigido para a salvação a observância dos Mandamentos – “Se queres entrar na vida eterna, observa os mandamentos” (Mt. 19,17) – a expressão tudo o que vos mandei”, inclui as boas obras resultantes da observânciados mandamentos e dos deveres de estado. Ademais Jesus declara que virá “retribuir a cada um segundo as suas obras”. (Mt. 16,27)

6 – Vejamos o 2º texto. (Rm. 3,28; cf. também Gal. 2,16) Também ele é interpretado erroneamente pelos protestantes. É só analisar exatamente a citada frase do Apóstolo S. Paulo: “Julgamos que o homem é justificado pela fé sem as obras da Lei”.Com efeito:

a ) O texto não afirma que o homem se salva somente pela fé. Este somente é invenção protestante, a começar por Lutero, o qual, “por ser depravado e não querer se converter, o inventou para tapear a própria consciência” (“Legítima interpretação da Bíblia”, Lúcio Navarro)

b ) Pela expressão “obras da Lei”, São Paulo fala de certas observâncias judaicas, como circuncisão, abluções, certas festas, etc., incluídas no termo “Lei”  (de Moisés), observâncias que foram supressas pela nova Lei do Evangelho. Não fala o Apóstolo das obras resultantes da observância do Decálogo, os dez mandamentos. Estaria em oposição a Mt. 19,17.

c ) Ele não fala de salvação, mas sim, de justificação. É esta uma distinção muito importante. Com efeito, a salvação é o término de um processo de santificação pessoal que começa com a justificação. Para  a justificação só Deus atua, dando o dom da fé e da graça santificante. No processo de santificação, porém, entram a ação de Deus que atua sempre na alma e é o principal agente, e a do homem que corresponde livremente à ação divina praticando o bem e evitando o mal. Por essa colaboração o homem merece a recompensa da salvação.

7 – Para a santificação não há limites: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste”. Quer dizer: imita Jesus Cristo (pela fé e boas obras); a Ele que é a imagem perfeita do Pai. (Col. 1, 15; Heb. 1,3) Foi dito que a justificação ou o início desse processo é obra gratuita de Deus, porque o homem nada pode fazer para merecê-la. Uma vez, porém, elevado pela graça santificante ao plano sobrenatural  (justificação), deve o homem, por suas boas obras (amor de Deus e do próximo, do que “depende toda a Lei e os Profetas”– Mt. 22, 39-40), cooperar livremente com esta ação de Deus em sua alma e merecer  a graça da salvação, ou o prêmio de Deus na glória celeste. (Mt. 25, 21 a 23)

8 – Além disso, S. Paulo afirma que a fé é operante, ou seja, deve ser atuada ou exercitada pelas boas obras, pois diz: “A fé opera pela caridade”.(Gal. 5,6) E em outro lugar: “Diante de Deus não são justos os que ouvem a Lei, mas serão tidos por justos os que praticam a Lei.”(Rom 2,13)  Portanto, segundo a Bíblia, as boas obras são necessárias para que a fé não seja morta (Tg. 2, 26), e pois, para a salvação. De modo que é Cristo, sim, que salva, mas o homem coopera pelas suas boas obras. Daí o conhecido dito de Santo Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.

Falsa noção de fé protestante

9 – Lutero declarou que nada nos aproveita “crer que em Jesus Cristo há duas naturezas, a de Deus e a de homem”, ou seja, que “Ele é o Filho de Deus feito Homem”“O que me importa, disse, é crer que ele é meu Salvador pessoal”. Esta doutrina errônea é o fundamento da fé fiducial e subjetiva protestante (fé-sentimento de confiança). Isto equivale a crer que o ato de fé prescinde do objeto da fé, ou seja, no caso presente, da verdade de que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Verdade essa que é fundamental para a salvação.

10 – Um ato de fé assim tão erroneamente entendido não pode ser de verdadeira fé, sem a qual ninguém pode agradar a Deus (Heb.11,6), isto é, salvar-se. A fé verdadeira requer a adesão da mente a todas e cada uma das verdades reveladas por Deus e propostas pela Igreja de Deus, como pertencentes ao “precioso depósito” (da fé). (2 Tim 1,13-14 ) É desse modo que o ato de fé é um obséquio da razão humana elevada pela graça, e não um mero sentimento.

11 – A principal destas verdades é o mistério da Encarnação do Filho de Deus. O ato de fé em Jesus Cristo que não atinja este mistério, é falso e nulo (meramente sentimental). Não é um obséquio racional (Rom 12,1 – versão da Vulgata), ou espiritual. Para sê-lo é preciso crer que Jesus Cristo é Deus e Homem verdadeiro ao mesmo tempo, e que, portanto, Maria Santíssima é sua verdadeira Mãe. E nós professamos essa verdade também chamando-A de Mãe de Deus. O mesmo se diga de todas as verdades a serem cridas com ato de fé divina.

12 – Lutero, reduzindo a fé a um ato alógico (irracional, sentimental), falseou profundamente a sua verdadeira noção, rebaixando a fé ao domínio do sentimento. Portanto, a fé protestante não é suficiente para a justificação e salvação.

Falsa noção protestante de justificação

13 – O fundador do protestantismo, não conseguindo se libertar do pecado impuro, devido a sua desregrada sensualidade, declarou que a natureza humana, depois do pecado original, está irremediavelmente corrompida, e que, por isso, a graça da justificação não pode santificá-la no seu íntimo. Inventou, então, a doutrina anti-evangélica e hipócrita da justificação como algo meramente externo à alma. Uma espécie de manto da justiça de Cristo, com o qual Deus revestiria a alma daquele que crê, sem torná-la, no entanto, interiormente purificada e santificada.

14 – Exemplifica bem essa absurda doutrina este conselho que Lutero deu, em carta, a seu amigo Melanchton: “Peca fortemente, mas crê mais fortemente e alegra-te em Cristo”. (Carta de 01 de agosto de 1521) Ora, conceber assim o efeito da graça santificante que Deus infunde na alma do pecador para justificá-lo, é subverter totalmente o Evangelho de Jesus Cristo. É supor que Ele se contenta com as aparências, quando condenou severamente a hipocrisia dos fariseus, chamando-os de sepulcros caiados (Mt. 23,25 a 28). Se aprovasse esse tipo de justificação, Jesus Cristo estaria Se contradizendo a Si mesmo. Como pensar que Deus se contente com esse tipo justificação apenas externa inventado por Lutero?

15 – Vê-se, pois, que a doutrina católica e a protestante são irreconciliáveis. E só um muito mal entendido ecumenismo pôde produzir uma declaração conjunta católico-luterana, profundamente ambígua, sobre a justificação.

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